terça-feira, 23 de outubro de 2007

Vinho tinto e mulher




Vinho tinto de velha safra ele tomou, quase um litro.
Varou a noite um pouco embriagado à procura de um
grande amor,como já fizera em outras ocasiões.
Vivia sozinho, solitário em belo apartamento no
centro da cidade. Vizinhos eram poucos, com os
quais mantinha distante relação de amizade.

Vizinha bonita não havia, as poucas ali residentes
eram casadas. Valentina foi a primeira namorada,
que nunca mais viu.
Vera e Vitória vieram em seguida, mas logo
desapareceram de sua vida e hoje vivem distantes
de seus sonhos românticos. Velho ainda não era,
pois passava apenas um pouco da casa dos trinta anos.
Vez ou outra passeava em cidades vizinhas à procura
da companheira tão desejada.
Vinhedo e Valinhos eram as cidades preferidas.
Vilma e Vanda foram apresentadas a ele numa dessas
viagens turísticas, mas nada de interessante ocorreu,
pois nenhuma das duas teve por ele grande atração e não
passaram de dois amores platônicos em sua existência.
Vazia ia ficando a vida de Vicente, este era seu nome.
Voraz nessa busca, via que acabaria doente de tanta
procura em noites seguidas. Velha já estava a noite
vazia daquele dia em que quase um litro de vinho
tinto de velha safra bebeu o coitado do Vicente,
à procura da mulher que daria mais objetivo e sentido
à sua vida. Vida vadia a de Vicente, agora quase demente.
Vielas, ruas e avenidas percorreu e mulher não encontrava.
Várias chegou a avistar bem distantes estavam, é verdade,
e a curta distância também pôde observar algumas, mas
não eram aquelas e nem estas, o tipo de mulher que
estava procurando.
Viu uma de repente, mulher diferente.
Vislumbrou os loiros e lisos cabelos escorridos pelas
costas e bem torneadas as pernas, ressaltadas pela
meia de seda, na iluminação pública da calçada.
Vai bem devagar Vicente com medo de assustar a bonita
mulher, assim lhe parecia, que demonstrava estar
esperando alguém.
Vinho tinto de velha safra não presta, começou a pensar
depois de bem perto chegar.
Vítima de ilusão ótica, talvez por efeito da bebida,
vital decisão resolveu tomar:
Virou abstêmio a partir daquela noite, o pobre Vicente.
Veado, travestido, era a loira, que avistara à distância,
pensando ser mulher.



Hildebrando Pafundi

segunda-feira, 22 de outubro de 2007


´”Por que me fizeste ver tua outra face?
Aquela que escondeste num manto
entre encantos com arte matreira,
e tentaste de mil maneiras,
ir ao recôndito de mim?
Por que me espiaste pela fresta
da janela onde eu te esperava?
Ali eu cantava para o sol
e brincava como gota do último luar,
enfeitando-me para te agradar.
Então, por que perturbaste meu sossego?
Com tuas asneiras e sorriso de cobra,
envenenando minhas idéias costumeiras?
Fez-me ferver a cada instante de teus assaltos,
de face espremida em meus desvarios que,
após tuas carícias, sangravam.
Não me deixaste sonhar
Adentraste meu porto só
percutindo dose fatal de ilusão
e, assaltou-me no primeiro ponto da estação.
Por que me fizeste conhecer
a outra face daquela face que eu tanto quis?”

domingo, 21 de outubro de 2007

Abjeto




Abjeto,
porém
acessível
ao alcance
da insaciável
fome
de viver
não obstante
desencontros
contínuos
de quem
ileso (feito copo
que resiste
à negligência
de mãos
distraídas) persiste
no oficio
ingrato
de amar

sábado, 20 de outubro de 2007

A TI


“Nomeio-te em segredo
e não te digo
retenho-te nos olhos
e tudo acende
cicias-me ao ouvido
e alvoroçada
recolho-te na boca
e tudo queima.
Ardo sozinho
a mão convulsionada
a desenhar-te em mim“

quinta-feira, 4 de outubro de 2007



Divina Música!

Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
E do Amor.
Sonho do coração humano,
Fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
E desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
Confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
E dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
Das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
Que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
Fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
Depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
E a ouvir com os corações.

GIBRAN KAHLIL GIBRAN


Esta página é uma homenagem à devoção pelo belo e pela arte, que Gibran soube tão bem nos transmitir. Sinto-me feliz por proporcionar aos milhões de admiradores do autor de "O Profeta" mais estas flores do jardim espiritual de uma alma rica de fé e generosidade. Em meio a estas flores, estão alguns dos mais envolventes e incisivos escritos de Gibran, que datam do período do exílio de seu país, o Líbano, e da excomunhão pela sua igreja.
Muitos anos mais tarde, seria reconvocado do exílio e a Igreja lhe reabriria os braços.
Ele escreveu coisas maravilhosas, e sua literatura e arte ímpares espalharam-se, traduzidas por mais de 30 países. Gibran manteve sempre seu sublime e independente culto ao espírito e aos ditames da ética. Para aqueles que o lêem pela primeira vez, pode-se acentuar que ele combina as mais elevadas e vívidas percepções da realidade espiritual com uma poesia adornada e absolutamente individual.
Sua originalidade e poder conquistaram a admiração e até mesmo o fervor de milhões de leitores, em dezenas de línguas. Gibran também conquista quase igual reputação como pintor. Seus desenhos e pinturas eram expostos periodicamente pelas metrópoles mundiais. Quando o grande Rodin quis que lhe pintassem o retrato, Gibran, que era comparado a ele e a William Blake, foi o artista escolhido.
No mundo ocidental, esse poeta, filósofo e artista chegou a ser chamado de "o Dante do século XX". Para seus admiradores do Oriente Médio, ele é o Amado Mestre.
Uma testemunha dos funerais de Gibran, realizados em 1931, descreveu-os como tendo sido "além da imaginação". Centenas de padres e líderes religiosos, representando cada uma das grandes seitas do Oriente, ampliavam com suas presenças a emoção da solenidade. Lá estavam sacerdotes e dignitários Maronitas, Católicos, Xiitas, Protestantes, Muçulmanos, Gregos Ortodoxos, Judeus, Sunitas, Druzos e outros.
E, para completar a reintegração de Gibran no seio da Igreja, ele foi enterrado numa gruta do Mosteiro de Mar Carkis, em Bsharri, no Líbano — a diocese de sua infância.
Seu túmulo transformou-se num lugar de peregrinação. Ao lado, o Comitê Nacional de Gibran edificou um museu onde são expostos algumas das suas belas telas e os seus livros em todas as línguas. Em cima do túmulo, esta simples inscrição: "Aqui, entre nós, dorme Gibran."
Mas lá, na verdade, dorme somente seu corpo. Sua alma, difundida nos seus livros, serve de guia a milhões de leitores na mais fascinante de todas as viagens: a que leva o homem das trevas do egoísmo e da cegueira ao esplendor do dom de si e da compreensão.